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Dieta low carb: Superior ou estudos enviesados?

December 23, 2017

Me enviaram alguns estudos sobre low carb p/ mostrar resultados superiores frente a dietas baixas em gorduras no que tange a parâmetros clínicos (glicose, hemoglobina glicada, síndrome metabólica).

Acho importante o debate com evidências e, conforme já comentei estudos que me enviaram falando mal do leite, vamos aos estudos com Low carb:

 

#1- O primeiro (1) é com diabéticos, o que já inviabiliza os resultados afinal são grupos específicos com distúrbios no metabolismo insulina/glicose. Não houve grupo controle. Os participantes foram de uma dieta de 309g de carboidrato (40% simples) para apenas 20g, aumentaram as proteínas em 15g (que da mais saciedade) e as gorduras em apenas mais 90kcal. Ou seja, o que houve foi uma redução calórica (3100kcal para 2100) pela retirada de carboidratos (que eram bem mal distribuídos). Houve redução de peso, obviamente, embora a fome não tenha mudada e a satisfação e energia diminuído. A sensação de enjoo aumentou.

 

#2- O segundo estudo (2) é com 42 mulheres obesas, saudáveis dessa vez (em parâmetros clínicos como presença doenças crônicas). Foram divididas em grupos low fat e low carb por seis meses. A perda de gordura foi maior no grupo low carb (-5kgs) em comparação ao grupo low fat (-2kgs), a massa magra foi reduzida nos low carbs em -2,8kgs e no grupo low fat em -700g. O colesterol LDL (‘ruim’) diminuiu no grupo low fat e se manteve no low carb. Ambos aumentaram um pouco o HDL mas a dieta low carb foi mais eficaz em reduzir triglicerídeos. Glicose, insulina e leptina reduziram mais no grupo low carb. Temos mais uma vez o viés do grupo low carb consumir mais proteína (quase 30% a mais) o que é injusto já que é um nutriente mais sacietógeno e menos lipogênico. Também não há informações sobre os tipos de carboidratos consumidos e sabemos que uma maltodextrina é diferente de um arroz integral ou batata-doce.

 

#3 O próximo (3) foi com 79 mulheres com obesidade severa (IMC >43), tendo boa parte diabetes ou síndrome metabólica. Não podemos relevar para pessoas saudáveis então, mas seguimos... Divididas em 2 grupos (low fat e low carb), todas diminuíram a ingestão calórica (low carb – 460 e low fat – 270 kcal) e o consumo de proteína foi 16% apenas no grupo low fat e 22% no grupo low carb. Vocês acham justo um grupo diminuir mais as kcal e consumir mais proteína? Eu não... Não houve diferença entre os grupos nos níveis de sensibilidade a insulina, LDL e HDL, porém os triglicerídeos, hemoglobina glicada, insulina e glicose caíram mais nos grupos low carb.

 

 #4 O seguinte (4) é o mais confuso, já que é com adolescentes e não há controle dietético. Eles apenas foram divididos em grupos Low carb e Low fat e instruídos a manter a ingestão de cada um desses nutrientes abaixo de 40g/dia. O resto dos nutrientes foi consumido à vontade. No entanto, o grupo low carb reportou comer 700kcal a mais do que o grupo low fat, embora o desvio pra cima e pra baixo seja de 600kcal. O grupo low carb perdeu mais peso em 12 semanas, mas isso se dá pelo fato de que apenas 3 dos 16 no LC perderam mais do que o dobro do que todos os outros participantes em todos os grupos. A mediana entre os grupos Low carb e low fat foi parecida e sem informação de que tipo de peso foi perdido (gordura, massa magra, água, glicogênio, já que utilizaram simples balanças. Houve mais redução de LDL no grupo low fat enquanto os triglicerídeos diminuíram bem mais no grupo low carb. No geral, um estudo mal controlado e com grandes vieses, infelizmente.

 

#5 O quinto estudo, como o próprio nome já diz, ‘The National Cholesterol Education Program Diet vs a Diet Lower in Carbohydrates and Higher in Protein and Monounsaturated Fat’ compara uma dieta low fat com uma alta em Proteína e em gordura MONOINSATURADA, o que sabemos ter efeitos melhores na saúde cardiovascular e até na microbiota quando comparada a saturada. Se alguém defende o consumo maior de saturadas e usa este estudo pra provar, mostra que não leu ao menos seu título. Obviamente, o grupo com mais proteína reduziu mais o peso e diminuiu mais triglicerídeos, embora não haja informações sobre o que foi esse peso perdido.

 

#6 O sexto é uma comparação entre tipos de dietas (Atkins, Zone, Ornish e Learn) em mais de 300 mulheres com IMC > 27. Sabendo que a dieta Atkins é mais rica em proteínas nas primeiras semanas, há uma superioridade quanto as outras justamente por isso, não pelas diferenças carboidrato e gordura. Tanto que a redução de gordura foi maior nos primeiros meses e depois recuperaram um pouco do peso perdido. Aliás, a única que deu uma redução mais progressiva, embora menor, foi a Ornish.  A redução de gordura corporal foi 2,9% ao final de um ano na Atkins enquanto nos outros grupos, de 1 a 1,5%. Resultados irrisórios mas comuns em estudos grandes, afinal há grande variabilidade. Também reduziu mais triglicerídeos. 

Isso quer dizer que a dieta Atkins é ideal? Não, necessariamente, afinal devemos sempre priorizar pela adesão, mas se alguém se adaptar a ela, pode sim ter bons resultados, tomando cuidado com a ingestão de fibras, exercícios físicos, constipação, dores de cabeça, etc.

Ou seja, temos uma grande vantagem pelo uso da proteína, não sendo uma comparação justa.

 

#7 No sétimo estudo, um caso curioso. É também com diabéticos, mas a restrição de carboidratos não é tão severa assim, sendo 33% de carboidratos no grupo Low carb e 45% no grupo low fat. Em proteínas, mais uma vez quantidades desiguais, mas desta vez nem tanto (26% na Low carb contra 20% na low fat). O resto em gorduras. A quantidade de calorias foi levemente desigual com o grupo low carb consumindo menos (1290 contra 1434 na low fat).

A LC foi mais efetiva na redução de peso (-3,5kgs) do que na low fat (-0,9kgs) nos três meses, mostrando que uma redução não tão severas de carboidrato (houve frutas, aliás) com uma redução calórica ajudou os pacientes diabéticos. Porém, quanto a indivíduos saudáveis, não prova nada, mas prova que não é preciso retirar totalmente carboidratos de diabéticos.

 

#8 Por fim, o último estudo que me mandaram, também em diabéticos, comparou a dieta cetogênica com uma dieta com carboidratos de baixo índice glicêmico. Ao final de dois anos, os dois grupos (29 pessoas na baixo índice e 21 na cetogênica) reduziram o peso de maneira semelhante, sendo 11kgs em média na cetogênica e 7kgs na de baixo índice. Ambas também reduziram hemoglobina glicada (parâmetro que mede a glicemia ao longo dos últimos três meses) e insulina, sendo a cetogênica levemente mais eficaz. Mais uma vez, a restrição maior de carboidratos diminuiu mais triglicerídeos e aumentou levemente LDL comparada a menor restrição. Novamente, não foram equilibradas as quantidades de proteína, onde o grupo cetogênica consumia apenas 20g de carboidrato e o resto dos alimentos a vontade e o grupo baixo índice glicêmico consumia uma dieta com 500kcal a menos que seu suposto gasto.

 

Nenhum dos 8 estudos demonstrou real superioridade da Low Carb, tendo todos metodologias que nos impedem de afirmar que carboidrato tem efeito mais lipogênico que gordura. A low carb diminuiu triglicerídeos em todos e a low fat reduziu mais LDL. As reduções de peso foram muito variáveis e medidas de maneira incorreta, muitas vezes não analisando composição corporal.

 

De bom, podemos ver que estratégias com menos carboidratos mas não tão restritas assim podem ser úteis em diabéticos (não precisa deixar em ele em cetogênica se ele não aderir), que a proteína tem efeito termogênico e que muitos estudos repetidos por doutores Low carb por aí não são tão bem controlados. Cuidado com a velha frase ‘estudos comprovam’.

 

1- Effect of a Low-Carbohydrate Diet on Appetite, Blood Glucose Levels, and Insulin Resistance in Obese Patients with Type 2 Diabetes.

 

2- A Randomized Trial Comparing a Very Low Carbohydrate Diet and a Calorie-Restricted Low Fat Diet on Body Weight and Cardiovascular Risk Factors in Healthy Women.

 

3- A low-carbohydrate as compared with a low-fat diet in severe obesity.

 

4- Effects of a low-carbohydrate diet on weight loss and cardiovascular risk factors in overweight adolescentes.

 

5- The National Cholesterol Education Program Diet vs a Diet Lower in Carbohydrates and Higher in Protein and Monounsaturated Fat.

 

6- Comparison of the Atkins, Zone, Ornish, and LEARN diets for change in weight and related risk factors among overweight premenopausal women: the A TO Z Weight Loss Study: a randomized trial.

 

7- Short-term effects of severe dietary carbohydrate-restriction advice in Type 2 diabetes--a randomized controlled trial.

 

8- The effect of a low-carbohydrate, ketogenic diet versus a low-glycemic index diet on glycemic control in type 2 diabetes mellitus.

 

 

 

 

 

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